As Testemunhas de Jeová e a Bíblia Hebraica

O que a maioria das Testemunhas de Jeová sabe sobre o Velho Testamento (A Bíblia Hebraica) simplesmente não é assim.

Eles sabem muito do que não é assim, porque vivem num mundo em que as referências a ela são muitas, dando-lhes uma falsa sensação de familiaridade.

E, eles também sabem muito pouco, porque na maioria das vezes, permitem que outros ensinem para eles através da lente de filtragem de uma teologia específica, criando muitos equívocos.

É fato que a Bíblia Hebraica não é um livro. Não foi produzido por um único autor em um tempo e lugar. É uma pequena biblioteca de escritos compostos e editados por mais de mil anos por pessoas que responderam a uma ampla gama de questões e circunstâncias históricas. Porque não é um livro (o nome “Bíblia” vem do grego, forma plural que significa “os livros”), ela não tem um estilo ou uma mensagem uniforme.

Como acontece com qualquer coleção de escritos de diferentes autores em diferentes séculos, os livros se contradizem. Eles se contradizem, porque várias vertentes da tradição foram tecidas em conjunto para criar os livros. A compilação de Gênesis colocada lado a lado, mostra duas histórias da criação que diferem dramaticamente no vocabulário, estilo literário e detalhes. Alguns capítulos depois, duas histórias são entrelaçadas em uma única história, apesar das muitas contradições e conflitos.

Provérbios exalta a sabedoria, mas Eclesiastes ridiculariza a sua loucura. Deuteronômio decanta a justiça retributiva de Deus, embora Jó chegue à conclusão agridoce que apesar da falta de justiça divina, não estamos dispensados da vida moral. Leitores antigos enxergaram esta antologia que se tornaria a Bíblia Hebraica, como digna de preservação, sem a exigência de concordância.

A Bíblia Hebraica não é um livro sobre o divino entregar verdades eternas, apesar do fato de que em um tempo muito mais tarde, sistemas complexos de teologia seriam tecidos a partir de interpretações particulares de passagens bíblicas. Em vez disso, seus materiais narrativos dão conta da viagem dos antigos israelitas, enquanto eles lutavam para dar sentido a sua história e como manter um relacionamento com seu deus. Sim, a Bíblia aborda questões morais, mas esses casos são poucos e distantes entre si.

Lendo a Bíblia paralelamente com o material das muitas culturas do Antigo Oriente, é uma revelação de como os antigos israelitas tomaram emprestado do mundo exterior, sem vergonha alguma. Eles adotaram e adaptaram estilos literários e histórias de outras culturas, mas no processo produziram leituras ainda mais ricas, mais coerentes com o texto bíblico do que teria sido possível de outra maneira.

As narrativas da Bíblia Hebraica não são parábolas piedosas sobre santos, nem são contos facilmente compreendidos por crianças. As narrativas são histórias sobre seres humanos cujo comportamento era frequentemente obsceno, mesquinho e violento. Mas, os personagens bíblicos também podiam mudar e agir com justiça e compaixão.

Christine Hayes da Universidade de Yale “Visão Geral do Velho Testamento”

A expectativa infundada de que os personagens bíblicos são modelos piedosos para nossa própria conduta, faz com que muitos leitores tentem reivindicar esses personagens, só porque são personagens bíblicos. Mas se nós atribuirmos a esses personagens a reputação de piedade fabricada pelas tradições religiosas posteriores, sem encobrir suas falhas, então perderemos as complexidades morais e os insights psicológicos que fizeram essas histórias de interesse atemporal. As narrativas bíblicas colocam sérias demandas em seus leitores. Elas exploram questões morais, colocando personagens bíblicos em dilemas morais. Mas elas geralmente deixam o leitor tirar uma conclusão.

O deus dos cinco primeiros livros da Bíblia não deve ser confundido com o deus da especulação teológica ocidental. Os atributos atribuídos a “Deus” por teólogos pós-bíblicos, tais como conhecer todas as coisas, não são atributos possuídos por Yahweh no Velho Testamento. Em várias ocasiões, este deus muda de ideia, porque quando se trata de seres humanos, a sua curva de aprendizagem é íngreme. Os seres humanos têm livre-arbítrio; eles agem de maneiras que causam surpresa a ele, e muitas vezes ele muda de rumo e responde. Um dos maiores desafios para os leitores modernos e objetivos da Bíblia Hebraica, é permitir que o texto apenas diga o que diz, quando o que diz contraria as doutrinas que surgiram séculos depois de debates filosóficos sobre “Deus”.

Se as Testemunhas de Jeová, e ex-Testemunhas reconhecerem esses equívocos sobre a Bíblia Hebraica, isso poderá permitir-lhes encontrar e lidar com a Bíblia em toda a sua rica complexidade, sua grandeza e sua mediocridade, sua sofisticação e sua autocontradição, o seu sentimento de tristeza e seu humor, e talvez ajudá-los a chegar a um entendimento compassivo nesse confronto, nada do tipo encontrei meu caminho e o mais alto entendimento ao ler a Bíblia Hebraica.

Nota do autor: Se você desejar saber mais sobre a Bíblia Hebraica, eu recomendo a leitura do livro de Christine Hayes – Introduction to the Bible. O livro é bem pesquisado e uma leitura fascinante. Eu descaradamente tomei emprestado este livro para escrever este artigo.

JWs and the Hebrew Bible

Postado por  em 02 de Dez de 2012 em Watchtower Watch

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