Seitas

O termo “seita” refere-se geralmente a grupos religiosos não convencionais, embora algumas vezes seja usado para grupos não religiosos que partilham com aqueles vários pontos. Por exemplo, alguns referem-se à Amway como seita, mas penso que o termo é melhor usado para grupos como Cientologia, a Igreja da Unificação do Rev. Sun Myung Moon, Aum Shinrikyo, os Hare Krishnas, os Meninos de Deus, os Davidianos de David Koresh, a Ordem do Templo Solar (74 suicídios em 1984), a Igreja Universal e Triunfante de Elizabeth Clare, os Unarianos, Heaven’s Gate (39 suicídios em 1997), e o grupo que seguiu o Rev. Jim Jones para a Guiana onde mais de 900 se uniram num ritual massacre/suicídio em 1978.

Três ideias parecem essenciais ao conceito de seita. Uma é pensar em termos de nós/eles com total alienação dos eles. A segunda são as intensas, embora por vezes sutis, técnicas de doutrinação usadas para recrutar e manter os membros. A terceira é o carismático líder da seita. A seita envolve geralmente a crença de que fora desta tudo é mau e ameaçador; dentro da seita temos o caminho para a salvação através do seu líder e dos seus ensinamentos.

As técnicas de doutrinação incluem:

1)  Sujeição ao estresse e fadiga
2)  Disrupção, isolamento e pressão
3)  Autocrítica e humilhação
4)  Medo, ansiedade e paranóia
5)  Controle de informação
6)  Escalada do compromisso
7)  Uso de auto hipnose para induzir “picos” de experiências

Claro que há um lado positivo nas seitas. Obtêm-se amor, um sentido de pertença, de ser especial, de ser protegido, de ser livre do mal do mundo, de estar no caminho da salvação eterna, de ter poder. Se o culto não satisfizesse necessidades que a vida fora da seita não satisfaz, as seitas não existiriam.

Um erro comum sobre seitas é a ideia de que os seus membros são doentes ou sofreram lavagens cerebral. As provas disto são escassas. Consiste apenas da sensação subjetiva de que ninguém no seu juízo poderia escolher acreditar naquilo que os membros da seita acreditam. Por exemplo, os 39 membros do Heaven’s Gate acreditaram que uma nave espacial vinha buscá-los para os levar a um “nível superior”. Acreditaram que o seu líder, Marshall Applewhite, era Cristo que voltara para levar os escolhidos para um lugar melhor algures no espaço, talvez numa nave como a Enterprise. Acreditaram que lhes seriam dados novos corpos no novo mundo, corpos assexuados, sem cabelo e dentes, com olhos e orelhas residuais. Para muitas pessoas essas crenças são ilusões de lunáticos e parece inconcebível que alguém normal aceitasse tais crenças a menos que estivesse louco.

Examinadas em pormenor, contudo, as crenças do Heaven’s Gate ou da Cientologia não são mais estranhas que as de bilhões de pessoas “normais” em relação às suas sagradas religiões. Como alguém notou, as ilusões de um é insanidade, as de alguns uma seita, as de muitos uma religião.

É verdade que os líderes das seitas ou os fundadores religiosos normalmente apresentam sinais de doença mental, como ouvir vozes e ilusões de grandeza. Mas os seguidores não precisam de ser loucos. Alguns são evidentemente perturbados, mas a maioria não o é, ou a seita não funcionaria. O líder tem de ser extremamente atrativo para os que converte. Deve satisfazer uma necessidade fundamental, mais provavelmente, a necessidade de ter alguém em quem possa confiar, depender ou acreditar totalmente: alguém que possa dar sentido e direção à sua vida; dar-lhe um propósito e significado. Deve ser óbvio que as pessoas ficam na seita porque se sentem melhor do que se sentiam fora dela. Alguns estudos mostram que um número significativo de membros de seitas estão deprimidos antes de se juntarem a esta, e esta levanta-lhes o espírito, fá-los sentir melhor. Mesmo se não estão deprimidos, a vida na seita tem de ser mais satisfatória do que a que tinham na vida real com a família e os amigos.

O aderir a uma seita é mais entrar para um convento do que juntar-se a uma igreja. Compreender o processo de adesão é compreender o processo de conversão. Dois grandes modelos de conversão podem ser estudados comparando Paulo de Tarso e Agostinho de Hipona. Nenhum era estúpido. Nenhum era doente ou sofreu lavagem do cérebro, mas eram iludidos. Pode ser verdade que os convertidos estejam num estado receptivo e que a depressão, dor, ansiedade, voltas da vida, etc., os possam tornar receptivos as seitas, mas esta “vulnerabilidade” torna-os susceptíveis a muitas coisas: ser enganados por aldrabões, familiares gananciosos, terapeutas sem escrúpulos, apaixonar-se pela pessoa errada, ir às compras, etc. Porque é que algumas pessoas veem os vales da vida como oportunidades de subir ao cimo do monte e outras esperam que os socorram? Não sei.

Porque é que alguém rejeita uma religião tradicional ou a existência secular com sua perseguição por família, riqueza, poder e fama? Como pode alguém sentir-se alienado do Cristianismo ou daquilo que a maioria persegue? Porque não ficam todos excitados com a hipótese de ser um hipócrita de Domingo, ou de entrar num carro que não pode pagar, ou de ter um trabalho de que não gosta, que não lhe paga o suficiente para sustentar a família que o toma por garantido? Porque não ficam todos excitados com a ideia de gastar 50 ou 60 anos acumulando objetos e perseguindo divertimentos? Porque não aceitam o fato de não passarem de átomos e moléculas que um dia se dispersarão e terminarão para sempre a sua existência? Porque não se podem satisfazer com a família e os amigos, em desenvolver os seus talentos e gozar uma série de prazeres antes de morrerem? Porque é que recusam viver neste mundo imperfeito, com todos os seus perigos?

Quem pode culpar alguém que rejeita a existência neste mundo? É verdade que podemos pegar num recém-nascido e sentir uma infinita esperança, mas facilmente podemos sentir um tremendo desespero. O mundo não é um lugar benevolente ou benigno. Está cheio de perigos e incertezas. Mas também é extremamente belo e interessante. Porque escolhem algumas pessoas dizer “não” à vida em vez de “sim” é algo a que não sei responder. Mas acredito que a maioria que diz “não” escolhe-o. Isto não é negar que são usadas técnicas de comunicação e persuasão pelos recrutadores das seitas. Mas os que como nós escolheram afirmar a vida também foram persuadidos; os nossos professores usaram técnicas para nos levarem à procura do conhecimento e a encontrar satisfação na arte e na natureza. O fato de algumas pessoas aspirarem a mais do que a vida pode dar é tomado como prova de que existe uma fonte superior que os atrai. Não penso que o desejo de outra espécie de ser ou de imortalidade prove algo sobre a sua existência ou bondade do objeto do desejo. É o mesmo que afirmar que o desejo pervertido de um pedófilo é a prova de que o seu desejo é bom e deve ser satisfeito.

Porque é que tantas pessoas se entregam de alma e coração a outro, membro do rebanho especial dirigido pelo verdadeiro pastor, escape de um mundo de carne e desejos humanos, não sei. Mas porque é que as pessoas se mantém nas seitas é simples: dá-lhes prazer. Podem estar enganados e manipulados. Podem ser usadas táticas de controle para os manter no rebanho, como cortá-los do contato com a família e amigos, reforço comunal dos dogmas da seita, e inculcar paranóia e isolamento. Reforço comunal e o inculcar de paranóia como tática de controle são usadas por pais com os filhos, líderes políticos com os seus cidadãos, e mesmo terapeutas com os pacientes. Ou seja, as seitas não são os únicos a tentar controlar as pessoas usando estas táticas.

Os membros das seitas podem gradualmente tornar-se paranoicos e acreditarem que o governo, a família e os antigos amigos não são de confiança. Podem gradualmente tornar-se mais isolados e militantes. Podem começar a armazenar armas para o Armagedom que se aproxima. Podem-se virar por completo para o seu salvador e dispostos a morrerem ou matarem por ele. Mas ficam porque gostam. Não digo que levem vidas com sentido, penso que perdem o tempo, mas não são lunáticos, estúpidos ou zombies. Estão iludidos mas não são loucos. Se achasse que tinham almas diria que são almas desencaminhadas; Mas não. Quando cometem suicídio devemos agradecer que tenham virado o seu ódio do mundo contra eles mesmos e não contra nós.

fonte: skepdic.com

2 Comentários

  1. A Verdade é filha do tempo.

  2. Eu acho que os Mórmons, Adventistas e Testemunhas de Jeová são Seitas.

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